Perdidos na memória, entre o azul d’um olhar

sábado, janeiro 09, 2016


“Quem vem lá Constança?”

Antes de chegar, fui avisada de que o caso estava mal parado, que eram pessoas do campo, gente de outros tempos.

Preparei-me para uma realidade totalmente diferente daquela a que estava habituada até então, perante um panorama tão dramático.

E eis que encontrei o mais importante - Amor. No estado mais puro a que alguma vez tivera o prazer de assistir.

Constança, de 87 anos, e Francisco, de 89, que durante o último ano foi afectado pelo tenebroso Alzheimer, que levou tanto do que não mais ficou e que nos assombra a nós pelo que já não é e não sabemos ao certo quando deixou de ser.

Os dois tão simples. Tão bonitos. Tão reais.

Francisco todos os dias se esquece de quem é, das pessoas que o rodeiam e de tudo o que vive no presente, mas há uma coisa de que nunca em tempo algum se consegue esquecer: a sua Constança.
A mulher para quem olha cada manhã desde os seus tempos de garoto. A mulher que cada dia conquistou e junto de quem sempre batalhou.

Recorda-se também, entre algumas falhas cronológicas, de cada trabalho no campo, cada vez que tiveram de lutar pela jorna diária e cada pessoa que, com o trabalho de equipa junto da sua esposa, foi adicionada à lista dos “despachados profissionalmente”. Alegra-se com cada canto daquela casa tão arranjada, tão meticulosamente cuidada, tão bonita, tão deles.

Por mais que a memória o tente levar dele, a ela, não a leva. É mais forte do que a doença, mais forte do que a cura, é amor e tem um nome.

Entre o olhar feito da cor mais bonita que o mar conhecera, daquelas duas pessoas com quem tive o tão grande prazer de privar, entendi que por todas as diligências que tiveram de passar, passaram-nas juntos e foi sempre com a força da união que prevaleceram.

 Naquele momento que Francisco não teve já capacidade de cronometrar, também eu me perdi, a saborear todas as histórias de luta, de vitória, de conquistas, mas também de muito trabalho e um imenso sacrifício. Da nossa conversa retive um imenso ensinamento, por entre os quase 90 anos de ambos, sei que há uma coisa que a dor do Alzheimer não será nunca capaz de lhes levar, a força das conquistas que alcançaram.

Poderá a memória faltar-lhes, poderá algum dia já nada mais fazer sentido, mas enquanto vivem, fazem-no da melhor forma que sabem, podem e conseguem, sempre juntos.

Todos os dias se lembram do quão importante são um para o outro, todos os dias se lembram do que o coração teima em não conseguir esquecer - Viver.

Enquanto há vida, não há memória nenhuma mais importante do que a de serem felizes. E ainda que colecionem o mesmo sorriso repetidamente várias vezes por dia, enquanto sorrirem, enquanto sentirem, enquanto amarem, irão sempre viver.

Pode já não se lembrar de mim agora Francisco, mas eu sempre me lembrarei de si. Devo-lhe isso. Tem uma história bonita demais para ser esquecida, e enquanto me permitir, irei recordá-lo sempre da pessoa extraordinária que é.


Até que a memória nos separe.



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